Punk, Rock e Hardcore: Uma série de entrevistas sobre o Hardcore Nordestino - Paraíba
por Mortífera Mag
São vários os motivos e fatores que me levam a escrever e querer aprofundar esse tema em diversas matérias. Aliás, compreender o impacto do gênero no Nordeste, tanto no âmbito musical quanto social, entra como principal peça-chave para o nosso objetivo. O primeiro dos nove estados teria que começar de uma forma que trouxesse impacto e o principal incentivo de onde nasceu a ideia: a Paraíba.
Dos palcos do Cilaio Ribeiro aos becos e à música urbana, loja na capital paraibana, o hardcore no estado da Paraíba teve diversas fases, em especial quando falamos sobre os principais percursores durante anos em João Pessoa: a Rotten Flies.
Falar sobre a Rotten Flies e sua trajetória no estado vai além de ressaltar a relevância da banda para o gênero na Paraíba, mas também de mostrar o quanto ela se movimentou ao longo dos anos, atravessando gerações e gerações de novas sonoridades que o hardcore incorporou.
Para falar sobre o atual cenário do hardcore na Paraíba, selecionamos um vocalista, grande admirador e frequentador do gênero no estado, Vitor Branco (Rotten Flies). Conversar com Vitor não apenas permite uma visão ainda mais ampla do hardcore como música e como fator social, mas também proporciona a oportunidade de compartilhar um momento com alguém que une diversas vertentes do underground paraibano por meio de sua constante movimentação no cenário.
Confira aqui:
5 (+1) bandas por Vitor Branco: Rotten Flies, Comedores de Lixo, Matando a Pau (região do Costa e Silva e Funcionários), Mob Ape (Alto do Mateus), Dead Nomads (Fundada na Torre) e Césio 137 (13 de Maio/Padre Zé).
Primeiramente, como você enxerga o atual cenário do Hardcore Paraibano? Tanto social, como musical.
Musicalmente vejo a cena hardcore se reerguendo e, novamente, buscando retomar seu lugar de direito, o protagonismo junto às outras vertentes do underground e no contexto social (não só devido a maior acesso à informação, mas tb a uma conscientização), vejo bandas e público mais engajados em temas, não só no campo político/protesto, mas também em temas como combate ao racismo, homofobia, misóginia e discursos de ódio em geral.
Voltando aos começos, falando sobre a primeira, ou uma das, Rotten Flies. O que você pode compartilhar sobre o início da banda, sua participação e a recepção da banda?
Conheci a Rotten eles tinham completado 5 anos de banda, foi em 1995 no Recanto Universitário (Bar da Tapa, do finado Sr. Edmundo “Presley’). Foi amor aos primeiros acordes.
Eu então com 15 anos fui levado ao show por um grande amigo, Márcio “Boca”, que já conhecia muita gente da cena, foi uma ótima acolhida, colava no máximo de shows e aos poucos fui ficando amigo do pessoal das bandas. A Rotten, em particular, eu tentava não perder um show e após a abertura da música urbana (1998) fiquei ainda mais próximo de Ramsés e Beto, daí veio o convite pra participar da gravação do “Amargo” e do “Rota de colisão”.
Após a saída de Ramsés, recebi o convite pra assumir os vocais, mas estava numa rotina de trabalho que não permitiria me dedicar à banda, além do mais, o outro “candidato” era Francisquinho. Eu mesmo disse que não tinha comparação! Afinal, Francisquinho me protegeu nas minhas primeiras rodas de pogos e tinha música da Rotten dedicada a ele (“Animal”), então tinha que ser ele! Ele assumiu os vocais e eu, mais uma vez, participei da gravação de um álbum: “Saco de gilete” (incluindo o clipe homônimo).
Após a saída de Francisquinho, eu estava morando em SP, Willie o substituiu esplendidamente e a banda renasceu. Com a saída de Willie, eu assumi os vocais podendo, finalmente, cantar todas as músicas que decorei das velhas demo tapes e foi assim que seguimos até o descanso de nosso amado Beto.
Frequentando o cenário do Hardcore na Paraíba, o que mais te chama atenção do público?
Além do que falei sobre maior engajamento e conscientização, o que me tem alegrado nesses últimos tempo, tem sido a renovação do público em si, essa chegada de uma geração nova é a “oxigenação” que a cena precisa.
Qual composição-música do Hardcore Paraibano você considera mais marcante? E por qual motivo?
Independente de ter feito parte da banda, tenho que dizer que “Revolta Programada” da Rotten é um hino. Aquela linha de baixo inicial, mesmo que “avisando” que o show iria terminar, renovava a instiga e dava a sensação de “dever cumprido’.
Mas, me desculpe mais uma vez, tenho que deixar menções honrosas para:
Mob Ape: “Chuva de Lágrimas”.
Matando a pau: “Patrão”
Comedores de Lixo: “Morta democracia”
Agente Laranja: “Holocausto nunca mais”
Celerados: “Circular Costa e Silva”
Dead Nomads: “Culture of competition”
Césio 137: “Realidade das ruas”
Cärcässä: “A divisão”
Sistema Brutal: “Terra de ninguém”
Best Foe: “Won't You Hear Me”
Qual momento mais impactante você considera do Hardcore Paraibano?
Pra mim, sem sombra de dúvidas o maior e mais impactante “momento”, na verdade foi um período que carinhosamente (e saudosamente) chamo de “Era de ouro do HCPB”, que foi da segunda metade da década de 90 até a primeira metade da década de 2010.
Onde bandas surgiam em cada canto da cidade, shows a todo momento e não só nos locais “tradicionais”, mas também nos locais mais inimagináveis: Casas, terrenos, lava-jato, praças, rua, quadras, galpão da mata na UFPB... Toda essa efervescência que culminou na criação de selos lendários: Cactus discos (o primeiro do estilo no Nordeste) e, posteriormente, o Microfonia. Selos que lançaram de demo-tapes até álbuns de bandas e coletâneas que tiveram alcance nacional. Foi realmente inesquecível, o boom da cena.
Quantas pessoas você conhece que seguem no Hardcore desde seus inícios até os dias atuais?
Inúmeras, a geração anterior a minha tem seus representantes ainda na ativa com bandas, a minha geração (40+) também tá fazendo som, se eu for citar aqui, vai ser uma lista enorme. Muitos se afastaram, isso é lógico, acontece seja por falta de tempo, família, trabalho ou perda de interesse mesmo, cada um que sabe de sua vida. Mas a lista de “coroas” ainda na ativa ainda é grande e isso é ótimo, pois há uma interação com a geração vindoura.
Quais são as características do Hardcore Paraibano que você enxergava anos atrás e persistem até a atualidade?
Falar de características do hardcore muitas vezes soa como algo genérico, mas no melhor sentido da palavra, pois pra mim é o dom de se reinventar e, principalmente, a persistência! O hardcore simplesmente “se nega a morrer” e aqui na PB isso não é diferente! Até um certo tempo atrás conversávamos em rodas de amigos sobre a escassez de shows e bandas do estilo e agora temos bandas de hardcore voltando a surgir e marcando presença novamente nos mais diversos eventos.
E quais você acha que se perderam com o tempo?
Acho que, infelizmente, o hardcore perdeu o público mais jovem no sentido da vontade de fazê-los querer formar bandas. Você pode pensar: “Ah, Vitor! Você tá contradizendo o que disse na resposta da pergunta anterior, quando falou do surgimento de bandas novas!”. Mas aí eu explico: estão surgindo bandas novas sim! Mas com integrantes mais velhos: Coalizão, Cärcässä, Best Foe, Setpout, Agromorte (com exceção do baterista) são exemplos de bandas novas, mas compostas por “veteranos”. A “Arrastão crew” deve ser a única formada exclusivamente por jovens (tinha a “jumento morto”, mas não sei se estão na ativa).
Então o hardcore tem que voltar a comunicar e instigar esses jovens para que haja renovação não só de público, mas de bandas também.
Como você enxerga a diversidade do atual cenário do Hardcore Paraibano? (gênero, sexualidade, etc)
Acho que ainda falta um pouco da presença feminina, antes tivemos bandas como Ovinis, Lilith, Noskill, tivemos Wilie nos vocais da Rotten e hoje temos na linha mais punk-rock a Margaridas em fúria e Matriarcaos. Queria realmente mais bandas de mulheres cis/trans na cena, porque o hardcore não é só protesto, ele tem que ser inclusão também.
Para finalizar, como você enxerga o cenário do Hardcore Paraibano em 5 anos?
Sou realista, mas independentemente do lado racional, meu maior sonho seria uma “nova era de ouro” para o hardcore paraibano, mas isso passa novamente por tudo que já conversamos aqui e que insisto nessa tecla, para que aconteça a renovação de público e PRINCIPALMENTE de bandas (com a turma jovem tocando) é imprescindível para a manutenção e sobrevivência da cena HC, porque essa velha guarda não vai seguir nos palcos pra sempre.
Matéria escrita por Mortífera Mag.
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